apesar de ser novembro, 2009 já acabou. só não acabou mais por conta de limitações cronológicas -- é novembro. fosse dezembro, estaria cronologicamente mais acabado do que em novembro, mas só acabaria completamente, para mim, quando estivesse afetivamente distante (como se pode perceber, tenho gostado do afeto, das paixões e seus derivados, em seus sentidos mais estritos). este afeto não depende apenas da cronologia, embora também dependa dela. 2009 não teria acabado mais em dezembro apenas por ser dezembro.
(estou machadiana. mas dentro das minhas muitas e grandes limitações)
todo o papo sobre a retrospectiva era porque o ano acabou, apesar de não ter acabado. após breve avaliação dos caderninhos, cheguei à conclusão de que este ano ruim pode ser dividido em algumas partes, que começam partindo de fevereiro, porque antes eu ainda me encontrava em certo país gelado (ou seria melhor "congelante"? ou simplesmente "frio pra caralho"?) e hostil, fato que fez com que, afetivamente, 2008 se estendesse ainda por algumas semanas. a primeira parte de 2009 chama-se "euforia", que começou já no avião, onde eu cantava mentalmente "stell dich in den sturm und schrei / ich bin hier, ich bin frei / alles was ich will ist zeit", e "minha alma canta / vejo o rio de janeiro / estou morrendo de saudade / rio, teu mar, praias sem fim / rio, você foi feito pra mim". este período durou algo entre seis e oito semanas, durante as quais os textos do caderninho versaram sobre planos um tanto megalomaníacos sobre mestrados, dietas, saúde, ginástica, relacionamentos de diversos tipos e re-reconhecimento de lugares, coisas, cheiros, de tudo isso que se afasta do coração quando estamos geograficamente longe. a tal terra fria pra caralho aparece com frequência, tanto para fins de exaltamento e precoce nostalgia quanto para fins de reclamação e hesitante aversão.
transcrever o que trata de mestrados, dieta, saúde e ginástica seria por demais tolo. as ideias sobre mestrado não seriam tanto, caso eu tivesse entrado em maiores detalhes sobre o que quero estudar, mas não foi o que fiz. falei mais de possíveis universidades onde estudar, em quais eu teria mais chance de receber bolsa do cnpq/capes/faperj e das novas possibilidades que se abririam para mim em decorrência de pesquisar x ou y. transcrever o que trata de relacionamentos é inadequado por ser extremamente pessoal. mas há partes em que, por exemplo, falo da minha dieta vegetariana estrita (que infelizmente sofreu danos -- já sanados -- na fase seguinte à euforia), que se refere à área dieta/saúde, e também à área política (pra quem for burro e não fizer a mais puta ideia do que tem a ver uma coisa com a outra, um dia explico), em interseção com relacionamentos, como quando cito comentários imbecis que já ouvi a respeito das minhas escolhas alimentícias. outro exemplo é o caso de uma pessoa conhecida que se tornou ovo-lacto-vegetariana e tinha um discurso equivocadíssimo a respeito dos animais e do meio ambiente. este último caso também é permeado de discordâncias relativas a outros aspectos da vida da referida pessoa, mas não vou citá-las porque, né, apesar de tudo ainda não sou o tipo que fala da vida alheia na internet. ainda que todas as considerações a respeito desta vida tenham sido feitas comparativamente à minha, que é o que na verdade importa. um gostinho:
"sem contar que ela agora resolveu virar ambientalista do greenpeace mesmo sem entender nada do assunto, achando que parar de comer carne e reciclar papel é suficiente para salvar o planeta. enquanto isso, continua consumindo todos os bens necessários à vida pequeno-burguesa de merda que vive, dizendo que não há problema em se alimentar de ovos e leite de animais 'bem tratados'. quero ver ela virar vegetariana estrita, boicotar todos esses bens de consumo e assumir uma ideologia política coerente e forte."
com detalhes, o trecho acima seria muito melhor. mas não é pra agora, unfortunately.
a fase seguinte é de extrema depressão, quando estive a ponto de me jogar do nono andar da universidade, fato que só foi discutido em seus pormenores com um único amigo à época. durou meses seguidos, de maio a setembro ou outubro, com altos e baixos. foi a época em que decidi adiar os planos de mestrado, trabalhei como tradutora em um lugar que odiava, deixei de me importar com muitas coisas que me eram ideologicamente caras, passei a comer grande sorte de porcarias, chegando aos 64 quilos, e me dei conta efetivamente dos fracassos e equívocos de muitos dos meus relacionamentos. esta percepção, na verdade, já se anunciava na fase da euforia, como se pode ver pelo trecho acima, mas só se efetivou mesmo um pouco mais tarde. anyway, foram trevas:
"não tenho dormido bem. se eu dormir às 21 h, por exemplo, acordo lá pelas 2 h, e fico rolando na cama até às 4h30. durmo muito mal de 4h30 às 6 h e passo o dia cansada. isso tem acontecido há mais ou menos um mês, com raras excessões. minha vida tem estado muito difícil, e nunca passei por tempos tão ruins quanto esses."
"meu diário é chato. não sou interessante. eu era tão promissora na infância, e virei uma pessoa tão mediana."
"hoje o dia foi desesperador. completamente. não tenho mais forças, e não mereço esta vida, e mesmo assim ela acontece. não é certo. não é certo. não consigo me manter racional diante disto. (...) dizer que sou infeliz, ou melhor, que estou infeliz, não equivale de modo algum a dizer que deixei de acreditar no amor fati."
"esta ideia de morrer não sai da minha cabeça, e confesso que tenho medo. não queria estar passando por isso porque é difícil decidir morrer. queria simplesmente ter certeza -- de querer morrer ou estar viva, tanto faz. talvez eu quisesse ter certeza de querer viver. é definitivamente mais fácil querer viver. (...) cortei o cabelo. eu mesma cortei meu próprio cabelo. não ficou ruim, mas mais curto do que eu queria. vai demorar uns três meses pra ficar legal -- isto se eu estiver viva em três meses. estou tentando ser racional e avaliar bem os motivos. há coisas bem ruins acontecendo, relacionadas à minha vida mundana, que não parecem passíveis de solução. (...) nem uma porra de um rivotril eu posso tomar. não vale a pena viver a minha vida. os dias são ruins e eu simplesmente não acho que vai melhorar. queria um veneno que matasse rápido, tipo o que o hitler toma em 'a queda'. nada de ficar passando mal antes de morrer ou, pior ainda, não morrer e ficar com sequelas escrotas. eu poderia me jogar do nono andar, mas não sei se quero ficar desfigurada, nem passar pela sensação de queda, nem cair em cima do carro de alguém no estacionamento."
foi nesta mesma época em que comecei a gostar da poesia do rilke. hoje em dia tenho um poeta preferido. legal, não?
como eu disse outro dia pra alguém, já saí do fundo do poço outras vezes, e sempre sozinha. minha vida mundana foi mudando, e algumas coisas boas aconteceram, e aí eu achei que viver não seria sempre tão ruim. e isto é agora. não está sendo tão ruim. e 2009 foi um ano curto, porém longo. eu sabia que seria difícil, visto que espero por 2010 desde 2008, mas não imaginei que seria tão ruim. e, graças!, agora está acabando de verdade.
a tal retrospectiva 2009 de ontem não se revelou uma retrospectiva do modo como eu tinha imaginado. mas está bom. o que tenho agora é aproveitar que as coisas estão melhorando, antes que piorem de novo.
bussi.