domingo, 22 de novembro de 2009

retrospectiva 2009 -- ei-la?

apesar de ser novembro, 2009 já acabou. só não acabou mais por conta de limitações cronológicas -- é novembro. fosse dezembro, estaria cronologicamente mais acabado do que em novembro, mas só acabaria completamente, para mim, quando estivesse afetivamente distante (como se pode perceber, tenho gostado do afeto, das paixões e seus derivados, em seus sentidos mais estritos). este afeto não depende apenas da cronologia, embora também dependa dela. 2009 não teria acabado mais em dezembro apenas por ser dezembro.

(estou machadiana. mas dentro das minhas muitas e grandes limitações)

todo o papo sobre a retrospectiva era porque o ano acabou, apesar de não ter acabado. após breve avaliação dos caderninhos, cheguei à conclusão de que este ano ruim pode ser dividido em algumas partes, que começam partindo de fevereiro, porque antes eu ainda me encontrava em certo país gelado (ou seria melhor "congelante"? ou simplesmente "frio pra caralho"?) e hostil, fato que fez com que, afetivamente, 2008 se estendesse ainda por algumas semanas. a primeira parte de 2009 chama-se "euforia", que começou já no avião, onde eu cantava mentalmente "stell dich in den sturm und schrei / ich bin hier, ich bin frei / alles was ich will ist zeit", e "minha alma canta / vejo o rio de janeiro / estou morrendo de saudade / rio, teu mar, praias sem fim / rio, você foi feito pra mim". este período durou algo entre seis e oito semanas, durante as quais os textos do caderninho versaram sobre planos um tanto megalomaníacos sobre mestrados, dietas, saúde, ginástica, relacionamentos de diversos tipos e re-reconhecimento de lugares, coisas, cheiros, de tudo isso que se afasta do coração quando estamos geograficamente longe. a tal terra fria pra caralho aparece com frequência, tanto para fins de exaltamento e precoce nostalgia quanto para fins de reclamação e hesitante aversão.

transcrever o que trata de mestrados, dieta, saúde e ginástica seria por demais tolo. as ideias sobre mestrado não seriam tanto, caso eu tivesse entrado em maiores detalhes sobre o que quero estudar, mas não foi o que fiz. falei mais de possíveis universidades onde estudar, em quais eu teria mais chance de receber bolsa do cnpq/capes/faperj e das novas possibilidades que se abririam para mim em decorrência de pesquisar x ou y. transcrever o que trata de relacionamentos é inadequado por ser extremamente pessoal. mas há partes em que, por exemplo, falo da minha dieta vegetariana estrita (que infelizmente sofreu danos -- já sanados -- na fase seguinte à euforia), que se refere à área dieta/saúde, e também à área política (pra quem for burro e não fizer a mais puta ideia do que tem a ver uma coisa com a outra, um dia explico), em interseção com relacionamentos, como quando cito comentários imbecis que já ouvi a respeito das minhas escolhas alimentícias. outro exemplo é o caso de uma pessoa conhecida que se tornou ovo-lacto-vegetariana e tinha um discurso equivocadíssimo a respeito dos animais e do meio ambiente. este último caso também é permeado de discordâncias relativas a outros aspectos da vida da referida pessoa, mas não vou citá-las porque, né, apesar de tudo ainda não sou o tipo que fala da vida alheia na internet. ainda que todas as considerações a respeito desta vida tenham sido feitas comparativamente à minha, que é o que na verdade importa. um gostinho:

"sem contar que ela agora resolveu virar ambientalista do greenpeace mesmo sem entender nada do assunto, achando que parar de comer carne e reciclar papel é suficiente para salvar o planeta. enquanto isso, continua consumindo todos os bens necessários à vida pequeno-burguesa de merda que vive, dizendo que não há problema em se alimentar de ovos e leite de animais 'bem tratados'. quero ver ela virar vegetariana estrita, boicotar todos esses bens de consumo e assumir uma ideologia política coerente e forte."

com detalhes, o trecho acima seria muito melhor. mas não é pra agora, unfortunately.

a fase seguinte é de extrema depressão, quando estive a ponto de me jogar do nono andar da universidade, fato que só foi discutido em seus pormenores com um único amigo à época. durou meses seguidos, de maio a setembro ou outubro, com altos e baixos. foi a época em que decidi adiar os planos de mestrado, trabalhei como tradutora em um lugar que odiava, deixei de me importar com muitas coisas que me eram ideologicamente caras, passei a comer grande sorte de porcarias, chegando aos 64 quilos, e me dei conta efetivamente dos fracassos e equívocos de muitos dos meus relacionamentos. esta percepção, na verdade, já se anunciava na fase da euforia, como se pode ver pelo trecho acima, mas só se efetivou mesmo um pouco mais tarde. anyway, foram trevas:

"não tenho dormido bem. se eu dormir às 21 h, por exemplo, acordo lá pelas 2 h, e fico rolando na cama até às 4h30. durmo muito mal de 4h30 às 6 h e passo o dia cansada. isso tem acontecido há mais ou menos um mês, com raras excessões. minha vida tem estado muito difícil, e nunca passei por tempos tão ruins quanto esses."

"meu diário é chato. não sou interessante. eu era tão promissora na infância, e virei uma pessoa tão mediana."

"hoje o dia foi desesperador. completamente. não tenho mais forças, e não mereço esta vida, e mesmo assim ela acontece. não é certo. não é certo. não consigo me manter racional diante disto. (...) dizer que sou infeliz, ou melhor, que estou infeliz, não equivale de modo algum a dizer que deixei de acreditar no amor fati."

"esta ideia de morrer não sai da minha cabeça, e confesso que tenho medo. não queria estar passando por isso porque é difícil decidir morrer. queria simplesmente ter certeza -- de querer morrer ou estar viva, tanto faz. talvez eu quisesse ter certeza de querer viver. é definitivamente mais fácil querer viver. (...) cortei o cabelo. eu mesma cortei meu próprio cabelo. não ficou ruim, mas mais curto do que eu queria. vai demorar uns três meses pra ficar legal -- isto se eu estiver viva em três meses. estou tentando ser racional e avaliar bem os motivos. há coisas bem ruins acontecendo, relacionadas à minha vida mundana, que não parecem passíveis de solução. (...) nem uma porra de um rivotril eu posso tomar. não vale a pena viver a minha vida. os dias são ruins e eu simplesmente não acho que vai melhorar. queria um veneno que matasse rápido, tipo o que o hitler toma em 'a queda'. nada de ficar passando mal antes de morrer ou, pior ainda, não morrer e ficar com sequelas escrotas. eu poderia me jogar do nono andar, mas não sei se quero ficar desfigurada, nem passar pela sensação de queda, nem cair em cima do carro de alguém no estacionamento."

foi nesta mesma época em que comecei a gostar da poesia do rilke. hoje em dia tenho um poeta preferido. legal, não?

como eu disse outro dia pra alguém, já saí do fundo do poço outras vezes, e sempre sozinha. minha vida mundana foi mudando, e algumas coisas boas aconteceram, e aí eu achei que viver não seria sempre tão ruim. e isto é agora. não está sendo tão ruim. e 2009 foi um ano curto, porém longo. eu sabia que seria difícil, visto que espero por 2010 desde 2008, mas não imaginei que seria tão ruim. e, graças!, agora está acabando de verdade.

a tal retrospectiva 2009 de ontem não se revelou uma retrospectiva do modo como eu tinha imaginado. mas está bom. o que tenho agora é aproveitar que as coisas estão melhorando, antes que piorem de novo.

bussi.

sábado, 21 de novembro de 2009

retrospectiva 2009 -- uma introdução

é público e notório que tenho um caderninho onde escrevo coisas impublicáveis. decidi fazer uma seleção de melhores trechos para colocar aqui.

atenção: não confundir tais trechos, escritos em meses idos, com coisas escritas agora. é que já houve vezes em que coloquei aqui coisas escritas tempos antes e sempre tem algum idiota que não enxerga a maldita data que indica quando escrevi, diferente da data que indica quando publiquei.

é importante dizer que ando escrotíssima, sem amor algum no coração e com enorme tendência e vontade de esculachar e ofender as mais diversas pessoas. tipo numa mesa de bar onde gente que eu acabo de conhecer me pergunta insistentemente o significado das minhas tatuagens, forçando uma intimidade que não existe. ou gente confundindo completamente o significado delas quando eu me disponho, com boa vontade, a explicar, perguntando se o fato de eu acreditar na adequação do amor fati significa que acredito em destino. atente para o fato de que eu disse adequação, e não existência. mesmo que fosse existência, o fatum não é destino no sentido de determinação. para mais explicações, favor ler os livros do bigode.

não posso ser professora porque a grande maioria não entende o que digo e muito menos o que escrevo. é por isso que tenho que fazer a todo tempo ressalvas como a do segundo parágrafo deste texto. estou condenada a não ter vida profissional. wie schön.

para os que se interessam pelo aspecto mundano da minha vida, consegui um emprego simples mas que muito me agrada, e que me deixa completamente sem tempo para nada, passei para o mestrado em terceiro lugar (e estudar tanto fez eu me sentir muito inteligente, ainda que a outra universidade para a qual me candidatei tenha me rejeitado bonito). essas duas coisas me fazem estar menos insatisfeita com o aspecto mundano da minha vida. ainda falta um pouco para melhorar, mas tenho estado calma em relação a isso. está tudo ótimo se pensarmos que, há pouco tempo, eu estava efetivamente a ponto de me jogar do nono andar da digna universidade onde estudo filosofia. disse isso pra uma amiga outro dia e ela não acreditou que fosse sério. relevei porque ela nunca acha nada sério além de suas próprias questões (também sou assim em certa medida). mas quando se trata de mim, ninguém acredita que é sério, de qualquer forma. whatever.

falando em faculdade, tenho faltado muito. energia mandou lembranças. mesmo assim tenho certeza de que vou passar em tudo. porque posso. uma vez eu disse que quem consegue parar de fumar pode tudo. é verdade.

voltei a ler machado de assis. o cara tem umas ironias tão refinadas, os protagonistas são tão elegantes e tão sem pedantismo, é incrível. não lia nada dele há uns bons anos. um dia vou me dedicar ao empreendimento de ler a obra completa. bom, bom, muito bom.

macunaíma também é bem bom. acho que falei dele aqui. e tem o caetano, que anda levantando umas polêmicas ultimamente, sobre o presidente e sobre o woody allen. nem sempre concordo com o que ele diz, mas entendo. eu entendo. entender é mais importante do que concordar, na minha humilde opinião. é um exercício no qual meus pouquíssimos leitores deveriam se aplicar. éuma dica pra entender minha "obra". heh.

ando escrota demais, e ao mesmo tempo simpaticíssima. exigências do mundo do trabalho. mas meus lasers ainda estão aqui.

emagreci. não tanto quanto queria, e não cheguei ao meu peso aceitável, de quando eu não tomava anticoncepcional e fumava, mas creio que não estou longe dele. ter me livrado de influências nefastas ajudou. continuo emagrecendo. a coisa toda é lenta, mas quanto mais devagar, melhor, não é o que dizem? é só não começar a beber cerveja e comer batata frita e amendoim todas as noites de novo. mas na última semana foram duas as noites em que isto aconteceu.

quando escrevo, faço uso excessivo de "que", "isto" e "este". como boa parte das coisas não-tão-boas que faço, só são percebidas pelos outros uma vez que eu tenha chamado atenção para elas. é bom porque significa que tenho credibilidade. é ruim porque... ah, não vou explicar. quem não entende que morra. é bom porque sempre tem gente que entende. tenho dois amigos que entendem. tenho tenho outros três amigos que não entendem tão bem, ou que não entendem at all, mas compensam com outras qualidades. tenho cinco amigos. gosto disso. já tive o triplo de amigos, mas creio que me equivocava. it's all in the past anyway. é sempre bom se livrar de influências nefastas, e foram muitas. também é bom não exigir das pessoas mais do que podem dar, e tinha gente que estava longe de atingir minha expectativa. esse é um bom gancho para voltar ao tema da retrospectiva 2009, que foi o que primeiro motivou este post. no meu caderninho há diversas coisas impublicáveis sobre pessoas que conheço. pode ser que apareça algo pelo caminho, mas não importa muito, pois duvido que sequer uma quinta parte delas leia esse blog -- e sou da teoria de que amigos se interessam pelo que seus amigos escrevem e fazem e de que, ao fazê-lo, não vão imbecilmente confundir números e datas claramente especificados nos devidos cabeçalhos.

vai ser devagar. não vai ser tudo hoje, mas pode ser que seja, se eu tiver disposição. devo começar pelo fim de fevereiro, visto que antes disso ainda estava naquele continente gelado onde eu era feia e gorda (agora continuo feia, mas apenas não-magra), e visto que creio não ser mais adequado voltar a um passado afetivamente tão distante, ainda que cronologicamente não tão distante assim (oh! deutschland!). se bem que escrevi umas coisas legais na época. mas quem se importa?

mas vamos a ela, a bendita, para que se distraiam meus poucos leitores. em alguns instantes, pois agora vou "comprar víveres para o meu lar".

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

estou cansada e não tenho mais tempo. para nada. nada. nada. apesar disso, tudo está cada vez melhor. este ano de trevas logo estará para trás. muita coisa por vir. stay tuned.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

tirei nove na prova do mestrado. yey!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

rainer maria rilke knows it all

der dichter

du entfernst dich von mir, du stunde.
wunden schlägt mir dein flügelschlag.
allein: was soll ich mit meinem munde?
mit meiner nacht? mit meinem tag?

ich habe keine geliebte, kein haus,
keine stelle auf der ich lebe.
alle dinge, an die ich mich gebe,
werden reich und geben mich aus.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

é incrível. em todos os lugares que eu vou, em toda direção que olho, meo deos, só tem gente FALANDO MERDA. eu não faço parte desse mundo, não faço.

domingo, 27 de setembro de 2009

carolina diz:
eu discordo de quem acha que solidão é triste
pode ser muito bom
Léo. diz:
PODE
sim
carolina diz:
eu por exemplo adoro ficar sozinha porque ninguém enche meu saco
Léo. diz:
e pode ser que não
carolina diz:
é, depende
Léo. diz:
prefiro que encham o meu saco a ficar sozinho
carolina diz:
aaaaaaaaaaahhhhhhhhhh eu não
de jeito nenhum
Léo. diz:
eu começo a falar alto
carolina diz:
sozinho?
Léo. diz:
é
carolina diz:
eu também falo sozinha
Léo. diz:
em voz alta
Léo. diz:
começo a fazer outras vozes e tudo
carolina diz:
sou uma ótima companhia
muito engraçada e inteligente
carolina diz:
mas só quando falo comigo mesma
carolina diz:
quando falo com os outros sou burra e sem graça

eu achava que quem mandava no país eram os políticos, empresários (políticos com frequência são empresários e vice-versa) e similares, mas andam dizendo por aí que é a classe média.


a conferir.

tô falando



me lembra o malvadinho de arma e capacete de guerra, dizendo "assassinos... vamos matar todos eles". e os cidadãos de bem, como sempre, fazendo a festa nos comentários.

sábado, 26 de setembro de 2009

acabo de tomar café solúvel pela primeira vez na vida. achei bem ruim. comecei a ler sobre thompson e preciso fazer uma citação:


"segmentos das classes médias, que há pouco faziam causa comum com as classes populares na luta democrática, abraçam com fervor o culto ao livre mercado. aderem também a uma ideologia utilitarista que reduz a pobreza e suas desagradáveis manifestações a um problema técnico, a ser resolvido pela subordinação do estado e da sociedade à razão instrumental, da qual se consideram, evidentemente, os representantes naturais."

(alexandre fortes em "miríades por toda a eternidade")

para se deparar com toda a burrice desta classe média, que tenta a todo custo não ser classe média, e que exatamente por isso se afirma mais e mais como tal, basta ler os comentários às notícias do jornal o globo, infestados de cidadãos de bem.

e não, não sou comunista/socialista/marxista ou coisa que o valha.